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A história do teatro feito por mulheres é marcada por um longo percurso de invisibilidade, resistência e transformação. Na Grécia Antiga e na Roma Antiga, as mulheres eram excluídas do palco: não podiam atuar nem escrever para teatro de forma reconhecida, e todos os papéis eram desempenhados por homens. Durante a Idade Média, embora o teatro estivesse fortemente ligado à Igreja e à vida comunitária, a participação feminina continuava muito limitada, surgindo apenas de forma pontual, muitas vezes em contextos religiosos ou conventuais, e raramente com autoria identificada. A exceção é mesmo Rosvita de Gandersheim, uma abadessa alemã que escreveu peças de teatro, sempre de carácter religioso, inspirando-se na obra de Terêncio.

É no Renascimento que começam a aparecer sinais de mudança. As mulheres passam gradualmente a poder atuar em vários países europeus, e surgem algumas das primeiras dramaturgas reconhecidas. Entre elas destaca-se Aphra Behn, frequentemente considerada uma das primeiras mulheres a viver da escrita teatral, num contexto ainda profundamente dominado por homens.

Nos séculos XVIII e XIX, as mulheres conquistam maior visibilidade enquanto atrizes, mas continuam a enfrentar obstáculos significativos como autoras. Algumas utilizam o teatro como espaço de intervenção política e social, como Olympe de Gouges ativista política e feminista, durante a Revolução Francesa, ou George Sand, pseudónimo masculino, que também se dedicou à escrita dramática.

A grande viragem ocorre no século XX, quando as mulheres passam a ocupar de forma mais consistente os papéis de dramaturgas, encenadoras e teóricas. No contexto das vanguardas, figuras como Gertrude Stein exploram novas formas de linguagem e estrutura dramática, rompendo com as convenções tradicionais. A partir das décadas de 1960 e 1970, com o crescimento dos movimentos feministas, o teatro torna-se um espaço privilegiado de crítica social e política. Autoras como Caryl Churchill questionam as relações de poder, o género e a construção da identidade, enquanto criadoras como Suzan-Lori Parks trazem para o palco questões de raça, memória histórica e representação. Neste período, desenvolve-se também o chamado teatro feminista, muitas vezes coletivo, experimental e assumidamente político.

No final do século XX e já no século XXI, o teatro feito por mulheres torna-se cada vez mais diverso e difícil de categorizar. Dramaturgas como Sarah Kane exploram territórios intensos e perturbadores da experiência humana, enquanto Yasmina Reza alcança grande sucesso internacional com obras centradas nas relações humanas contemporâneas, ou Angélica Liddell que desenvolve um teatro profundamente performativo e autobiográfico. Paralelamente, muitas criadoras trabalham em formatos híbridos que cruzam teatro, dança, artes visuais e performance, contribuindo para a expansão das fronteiras do próprio conceito de teatro.

No que a Portugal diz respeito, as mulheres começam a conquistar espaço, sobretudo, a partir do século XIX, onde tiveram um papel central no desenvolvimento do teatro, ainda que a sua posição social fosse ambivalente: por um lado, eram figuras públicas admiradas; por outro, continuavam a enfrentar preconceitos associados à profissão. O palco era um dos poucos espaços onde as mulheres podiam alcançar visibilidade e alguma autonomia, embora quase sempre sob o controlo de estruturas masculinas.

Entre as figuras mais importantes destaca-se Emília das Neves, considerada uma das maiores atrizes portuguesas de todos os tempos. Com uma carreira longa e aclamada, destacou-se pela intensidade dramática e pela capacidade de interpretar papéis trágicos, sendo uma referência incontornável do teatro romântico em Portugal. Foi também empresária teatral, o que revela um grau invulgar de autonomia para a época.

Outra figura relevante é Rosa Damasceno, muito popular junto do público lisboeta. A sua versatilidade permitia-lhe transitar entre o drama e a comédia, e tornou-se uma presença constante nos principais palcos da capital, contribuindo para a profissionalização da carreira de atriz.

Também Carlota Talassi e Ana Pereira merecem um amplo destaque. Estas atrizes trabalhavam sobretudo em teatros como o Teatro Nacional D. Maria II, inaugurado em 1846, que se tornou o principal palco do teatro português e um espaço de legitimação artística. Aí, as atrizes podiam alcançar prestígio, embora continuassem sujeitas a julgamentos morais e à instabilidade da profissão.

No início do século XX, com a modernização cultural e a implantação da República, começaram a surgir mais vozes femininas na escrita teatral. Virgínia Victorino destacou-se como uma das primeiras dramaturgas a alcançar reconhecimento público, enquanto Judite Teixeira trouxe uma escrita inovadora e provocadora, ligada ao modernismo e à exploração de temas como o género e a sexualidade.

Durante o período do Estado Novo, entre 1933 e 1974, a censura e o controlo ideológico limitaram fortemente a criação artística, afetando de forma particular as mulheres. A sua presença manteve-se mais visível enquanto intérpretes do que como autoras ou encenadoras. Apesar disso, algumas figuras destacaram-se pela resistência e pela capacidade de subverter as normas impostas. É o caso de Natália Correia, cuja obra teatral desafiava convenções sociais e políticas, frequentemente confrontando os mecanismos de censura. Durante este período é impossível esquecer Amélia Rey Colaço, encenadora e diretora artística do Teatro Nacional D. Maria II, figura incontornável do teatro em Portugal do século XX.

A partir da Revolução dos Cravos, o panorama transforma-se profundamente. A democratização trouxe uma explosão de novas formas de criação teatral e abriu espaço à participação mais ativa das mulheres como autoras, encenadoras e criadoras independentes. Neste contexto, surgem vozes importantes como Maria Velho da Costa, ligada à experimentação literária e teatral, e Luísa Costa Gomes, cuja obra se destaca pela ironia, inteligência crítica e originalidade formal.

Já no final do século XX e início do século XXI, o teatro feito por mulheres em Portugal afirma-se plenamente como parte central da criação contemporânea. Multiplicam-se as abordagens, muitas vezes cruzando teatro, performance e artes visuais, e explorando temas como identidade, memória, corpo e política. Criadoras como Mónica Calle, conhecida pela intensidade física e emocional do seu trabalho, Joana Craveiro, Cristina Carvalhal, Cláudia Lucas Chéu, entre muitas outras, exemplificam esta diversidade.

Atualmente, apesar de persistirem desigualdades, nomeadamente em cargos de direção institucional, o contributo das mulheres para o teatro em Portugal é vasto e incontornável. Para além da criação artística, tem-se assistido a um esforço crescente de revisitação histórica e crítica do papel das mulheres no teatro, bem como à criação de redes e iniciativas que promovem maior visibilidade e equidade no setor.

 

Ricardo Cabaça

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