O Teatro Nacional D. Maria II, em parceria com a Bicho-do-Mato, tem vindo, ao longos dos últimos dezassete anos, a dar uma atenção especial à coleção Textos de Teatro, onde publica peças relacionadas com a programação artística do TNDM II. A coleção conta com mais de 60 títulos, desde textos inéditos em Portugal ou, nalguns casos, peças que se encontravam esgotadas há muito tempo.
Além da preocupação em publicar peças com qualidade, o TNDM II procura, sempre que possível, reeditar peças da sua coleção que se encontram esgotadas. Nesse sentido, no final de 2025 foram reimpressos cinco títulos da coleção Textos de Teatro.
Glória ou Como Penélope Morreu de Tédio, texto de Cláudia Lucas Chéu, é uma peça que revisita e subverte referências clássicas, em particular a figura de Penélope, da Odisseia. Nesta obra, a espera deixa de ser um gesto nobre e paciente e transforma-se num símbolo de opressão, repetição e esvaziamento. A personagem feminina surge presa a um papel imposto, sufocada pela rotina e pela expectativa alheia. O tédio torna-se, assim, uma forma de violência silenciosa, revelando a crítica da autora às normas sociais e aos papéis tradicionalmente atribuídos às mulheres.
Em Violência — Fetiche de um Homem Bom, Cláudia Lucas Chéu constrói um texto perturbador e profundamente crítico, centrado na banalização da violência e na forma como esta é frequentemente justificada por discursos de normalidade, moralidade e “bondade”. A peça desmonta a figura do chamado “homem bom”, expondo as contradições entre a imagem socialmente aceite e os comportamentos violentos que essa mesma imagem procura ocultar ou legitimar.
Através de uma linguagem direta, agressiva e sem concessões, a autora confronta o espectador com diferentes formas de violência — física, psicológica, simbólica e estrutural — mostrando como estas se infiltram no quotidiano e nas relações humanas. A violência não surge apenas como ato extremo, mas como prática recorrente, muitas vezes disfarçada de amor, cuidado, dever ou autoridade. É precisamente essa normalização que o texto denuncia, revelando o carácter perverso de um sistema que protege o agressor enquanto silencia a vítima.
A peça Coriolano, de William Shakespeare, é uma tragédia política que explora de forma intensa as relações entre poder, orgulho e identidade. Inspirada na história da Roma Antiga, a obra centra-se na figura de Caio Márcio Coriolano, um general romano brilhante em combate, mas profundamente incapaz de lidar com a diplomacia, o compromisso e a opinião pública. Após uma grande vitória militar contra os volscos, Coriolano é aclamado como herói, mas o seu desprezo pelo povo e pelas suas necessidades torna-se rapidamente um obstáculo à sua ascensão política.
Ao longo da peça, Shakespeare constrói um retrato complexo de um homem dividido entre a honra pessoal e as exigências da vida pública. Coriolano acredita que o mérito deve falar por si e recusa adaptar-se às regras da política democrática, o que o coloca em conflito direto com os tribunos do povo e com a própria população romana. Esta tensão revela uma reflexão profunda sobre a fragilidade das estruturas políticas e sobre o perigo do extremismo, tanto por parte das elites orgulhosas como das massas manipuláveis.
Outro elemento central da peça é a relação entre Coriolano e a sua mãe, Volúmnia, uma figura dominante que molda o carácter do filho e a sua visão rígida de honra e dever. É precisamente através dela que se manifesta o maior conflito emocional da obra, mostrando que, mesmo o guerreiro mais inflexível, não está imune à pressão dos laços familiares. Coriolano permanece, assim, uma peça аtual, ao questionar o lugar do indivíduo na sociedade e os limites entre integridade pessoal e responsabilidade política.
À Vossa Vontade, de William Shakespeare, é uma comédia que explora temas como a identidade, o amor, o engano e a fluidez das emoções humanas. A ação desenrola-se no reino fictício da Ilíria e começa com um naufrágio que separa os gémeos Viola e Sebastião. Convencida de que o irmão morreu, Viola disfarça-se de homem, adotando o nome Cesário, para poder servir o duque Orsino. Este disfarce dá origem a uma complexa rede de mal-entendidos amorosos que sustenta grande parte do enredo.
No centro da peça está um triângulo amoroso marcado pela confusão de identidades: Orsino está apaixonado por Olívia, Olívia apaixona-se por Cesário (sem saber que é Viola) e Viola, por sua vez, ama Orsino em silêncio. Shakespeare utiliza esta situação para questionar as convenções sociais e os papéis de género, mostrando como o amor pode ser irracional, mutável e independente das aparências. O uso do disfarce permite também uma reflexão sobre a construção da identidade e sobre a distância entre o que se é e o que se aparenta ser.
A peça Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Edward Albee, é um drama intenso que expõe, de forma crua e perturbadora, as fragilidades das relações humanas, em particular do casamento. A ação decorre durante uma longa noite, na casa de George e Martha, um casal de meia-idade que convida um jovem casal, Nick e Honey, para uma conversa que rapidamente se transforma num jogo psicológico violento e desconcertante. Ao longo da peça, o diálogo assume um papel central, funcionando como arma e escudo numa batalha emocional sem tréguas.
George e Martha mantêm uma relação marcada pela provocação constante, pelo sarcasmo e pela humilhação mútua. As discussões que travam revelam frustrações profundas, sonhos falhados e ressentimentos acumulados ao longo dos anos. O álcool atua como catalisador, fazendo cair as máscaras sociais e expondo verdades desconfortáveis. Neste contexto, o jovem casal serve inicialmente como público involuntário, mas acaba por ser progressivamente arrastado para o conflito, vendo também a sua própria relação posta em causa.
Quem Tem Medo de Virginia Woolf? é, assim, uma obra exigente e profundamente psicológica, que questiona os limites do amor, da verdade e da comunicação entre os seres humanos. Ao expor a violência emocional escondida por detrás das convenções sociais, Edward Albee constrói um retrato inquietante da condição humana, tornando a peça intemporal e ainda hoje extremamente atual.
Ricardo Cabaça


