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Camilo Castelo Branco (1825-1890) é um dos nomes mais emblemáticos da literatura portuguesa do século XIX. Autor prolífico, escreveu romances, contos, peças de teatro, ensaios e crónicas, marcando profundamente o panorama literário português com a sua escrita intensa, irónica e, por vezes, profundamente trágica. Foi um dos primeiros escritores profissionais em Portugal, vivendo apenas da sua atividade literária, algo muito raro na época. O seu estilo é caracterizado por um uso vibrante da língua portuguesa, forte carga emocional e uma observação aguda da sociedade em que vivia.

Embora seja mais conhecido por romances como Amor de Perdição, A Queda de um Anjo e Onde Está a Felicidade?, Camilo também teve incursões no teatro. Dentre as suas peças, destaca-se O Morgado de Fafe em Lisboa, uma comédia que representa bem a sua capacidade de ironizar os costumes da sociedade portuguesa da época, sobretudo os contrastes entre a vida provinciana e a capital.

O Morgado de Fafe em Lisboa integra uma série de obras centradas na figura do morgado, personagem típica das classes rurais abastadas do norte de Portugal. Neste caso, Camilo dá continuidade à personagem já apresentada em O Morgado de Fafe Amoroso, criando uma sequência cómica das suas aventuras. A peça em questão, ambientada em Lisboa, mostra o morgado em confronto com os costumes urbanos da capital, num verdadeiro choque cultural.

O protagonista é retratado como um homem ingénuo, algo pretensioso e completamente deslocado no ambiente urbano. A sua visão limitada do mundo, típica do meio rural e conservador de onde vem, é colocada em evidência quando tenta adaptar-se (sem grande sucesso) à sofisticação e aos hábitos lisboetas. A peça utiliza esse confronto para criar situações cómicas, baseadas na incompreensão, no exagero e na paródia dos comportamentos sociais.

Camilo, através dessa sátira social, expõe as tensões entre o mundo rural e a cidade, um tema recorrente na literatura portuguesa do século XIX, especialmente num país em processo de modernização, mas ainda muito enraizado em estruturas sociais antigas. O morgado, símbolo do fidalgo decadente, torna-se uma figura caricatural que representa a resistência ao progresso e à mudança. Lisboa, por sua vez, aparece como o espaço da modernidade, mas também da superficialidade e da hipocrisia.

O humor da peça é refinado e inteligente, e revela o talento de Camilo para captar o ridículo humano, mesmo quando o exagera para fins cómicos. A linguagem utilizada é rica em regionalismos e trocadilhos, o que confere autenticidade às personagens e à ação dramática. Apesar do tom leve e bem-humorado, a peça possui uma crítica social implícita, revelando as contradições de uma sociedade em transição, onde o provincianismo e a modernidade colidem de forma quase grotesca.

Outro aspeto interessante é a forma como Camilo trabalha o estereótipo do "morgado" não apenas como uma figura cómica, mas também como um espelho deformado da sociedade portuguesa. A sua incapacidade de compreender e adaptar-se aos novos tempos é, de certo modo, uma crítica à elite que, mesmo decadente, ainda tentava manter o prestígio e o poder em contextos que já não lhe pertenciam. Ao colocar o morgado em Lisboa, Camilo leva ao extremo essa tensão entre passado e presente, tradição e mudança.

No dia 28 de junho de 1985, estreia na Sala Garrett do Teatro Nacional D. Maria II, o espetáculo O morgado de Fafe em Lisboa, com encenação de Ruy de Matos, tendo nos principais papéis Varela Silva, Catarina Avelar e Curado Ribeiro.

 

Ricardo Cabaça

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