Bertolt Brecht (1898–1956) foi um dos mais influentes dramaturgos, poetas e encenadores do século XX. Nascido em Augsburgo, na Alemanha, desenvolveu uma visão profundamente crítica da sociedade, marcada pelas transformações políticas e sociais do seu tempo. Viveu as duas Guerras Mundiais, assistiu à ascensão do nazismo e foi obrigado a exilar-se devido às suas convicções políticas. Estas experiências moldaram profundamente a sua obra, que procurou utilizar o teatro não apenas como forma de entretenimento, mas sobretudo como um instrumento de reflexão e transformação social.
Brecht é conhecido por ter desenvolvido o chamado teatro épico, uma forma de teatro que rompe com a tradição aristotélica. Enquanto o teatro clássico procurava envolver emocionalmente o público e levá-lo à identificação com as personagens, Brecht pretendia precisamente o contrário: queria que os espectadores mantivessem uma atitude crítica perante aquilo que viam em palco. Para isso, recorreu ao chamado efeito de distanciamento (Verfremdungseffekt), um conjunto de técnicas destinadas a impedir a ilusão teatral. Entre essas técnicas encontram-se a utilização de narradores, projeções de textos, mudanças de cenário à vista do público, músicas que interrompem a ação e atores que comentam as próprias personagens. O objetivo era levar os espectadores a questionarem as causas dos acontecimentos apresentados, em vez de os aceitarem como inevitáveis.
Entre as obras mais conhecidas de Brecht destacam-se A Ópera dos Três Vinténs, A Vida de Galileu, O Círculo de Giz Caucasiano, A Boa Alma de Sichuan e, sobretudo, Mãe Coragem e os Seus Filhos (Mutter Courage und ihre Kinder), escrita em 1939 durante o exílio do autor. Esta peça é considerada uma das obras-primas do teatro moderno e constitui uma poderosa denúncia da guerra e dos interesses económicos que a alimentam.
A ação de Mãe Coragem e os Seus Filhos decorre durante a Guerra dos Trinta Anos (1618–1648), um conflito devastador que assolou grande parte da Europa. Apesar de se situar no século XVII, Brecht utilizou este contexto histórico para comentar a realidade do seu próprio tempo. A peça foi escrita pouco antes do início da Segunda Guerra Mundial e funciona como um alerta para os perigos do militarismo, do nacionalismo e da exploração económica provocada pelos conflitos armados.
A protagonista, Anna Fierling, conhecida como Mãe Coragem, é uma comerciante ambulante que percorre os campos de batalha com uma carroça onde vende alimentos, roupas e outros bens aos soldados. A guerra constitui a sua única fonte de rendimento, pelo que depende da continuação do conflito para sobreviver. Esta dependência coloca-a perante um profundo paradoxo: embora deseje proteger os seus três filhos — Eilif, Queijo Suíço e Kattrin —, beneficia economicamente da guerra que acabará por lhes destruir a vida.
Ao longo da peça, os três filhos morrem em circunstâncias diferentes, cada uma revelando um aspeto da violência e da irracionalidade da guerra. Eilif é inicialmente elogiado pela sua coragem em combate, mas mais tarde é executado por ter cometido, em tempo de paz, os mesmos atos violentos que antes tinham sido considerados heroicos. Queijo Suíço, honesto e responsável, é morto por tentar cumprir o seu dever. Kattrin, a filha muda e profundamente humana, sacrifica a própria vida para salvar uma cidade de um ataque surpresa, tornando-se a única personagem que realiza um verdadeiro gesto altruísta.
A personagem de Mãe Coragem é particularmente complexa porque não corresponde à figura tradicional da heroína. Apesar do amor que sente pelos filhos, toma frequentemente decisões influenciadas pela necessidade de garantir o seu sustento económico. Em vários momentos, hesita entre salvar os filhos e proteger os seus bens, acabando por perder ambos. No final da peça, permanece sozinha, puxando a carroça e continuando o seu percurso, como se nada tivesse aprendido. Este desfecho é profundamente simbólico: Brecht pretende mostrar que os indivíduos podem tornar-se prisioneiros das condições económicas e sociais em que vivem, reproduzindo comportamentos que contribuem para a sua própria destruição.
Um dos aspetos mais importantes da peça é precisamente a recusa de Brecht em transformar Mãe Coragem numa mártir ou numa vítima inocente. O autor não pretende que o público tenha apenas pena da protagonista, mas que reflita sobre as razões que a levam a agir daquela forma. A peça sugere que a guerra não é um fenómeno natural nem inevitável, mas antes um sistema sustentado por interesses políticos e económicos. Enquanto houver quem beneficie com ela, haverá sempre o risco da sua continuação.
A linguagem utilizada por Brecht é relativamente simples, mas carregada de significado simbólico. As canções desempenham um papel fundamental, pois interrompem a ação dramática e convidam o público a refletir sobre os acontecimentos. Em vez de intensificarem a emoção, como acontece frequentemente na ópera ou no teatro musical tradicional, as canções funcionam como momentos de comentário crítico, reforçando o efeito de distanciamento.
Outro símbolo central é a carroça de Mãe Coragem. Ela representa simultaneamente o meio de sobrevivência da protagonista e o peso das suas escolhas. A carroça acompanha-a do início ao fim da peça, tornando-se quase uma extensão da própria personagem. No desfecho, quando Mãe Coragem continua a puxá-la sozinha, o público percebe que o ciclo da guerra e da exploração permanece inalterado.
A atualidade de Mãe Coragem e os Seus Filhos é um dos fatores que explicam a permanência da obra nos palcos de todo o mundo. Apesar de ter sido escrita há mais de oitenta anos, continua a suscitar reflexões sobre os conflitos armados, os refugiados, o lucro obtido através da indústria da guerra e as consequências humanas da violência. A peça recorda-nos que as guerras afetam sobretudo as populações civis e que, muitas vezes, aqueles que mais sofrem são precisamente os que menos responsabilidade têm na sua origem.
O texto estreou no Teatro Nacional D. Maria II em 1986 com Eunice Muñoz no principal papel. A encenação foi assinada por João Lourenço.
Ricardo Cabaça