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Entre as obras mais conhecidas de William Shakespeare, Macbeth ocupa um lugar particularmente importante na história do teatro. Escrita provavelmente entre 1606 e 1607, a tragédia apresenta uma narrativa marcada pela ambição, pela violência, pela culpa e pelo sobrenatural. Contudo, para além dos acontecimentos representados em palco, Macbeth tornou-se conhecida por uma outra razão: a chamada “maldição de Macbeth”. Segundo uma antiga superstição teatral, pronunciar o nome da peça dentro de um teatro, quando não se está a representá-la, pode trazer azar à companhia, aos atores e à própria produção. Por esse motivo, muitos profissionais do teatro referem-se à obra simplesmente como “a peça escocesa”.

A origem desta superstição está relacionada com a própria natureza da tragédia e com a longa história de acontecimentos infelizes associados às suas representações. Ao longo dos séculos, acidentes, incêndios, mortes e conflitos ocorridos em torno de algumas produções foram posteriormente associados à peça, contribuindo para fortalecer a ideia de que Macbeth seria uma obra especialmente perigosa. Apesar de não existir qualquer prova de uma maldição sobrenatural, estes acontecimentos desempenharam um papel importante na construção da lenda.

A associação entre Macbeth e a superstição não pode ser separada dos elementos sobrenaturais presentes na própria obra. Logo no início da tragédia, Macbeth e Banquo encontram três bruxas que anunciam acontecimentos relacionados com o futuro do protagonista. As profecias despertam a ambição de Macbeth e desempenham um papel fundamental na transformação da personagem. Embora as bruxas não obriguem Macbeth a cometer os crimes, as suas palavras contribuem para criar um ambiente de incerteza e ameaça.

O sobrenatural manifesta-se ainda através de aparições, sonhos e visões. Um dos exemplos mais conhecidos é o fantasma de Banquo, assassinado por ordem de Macbeth. Durante um banquete, Macbeth vê o fantasma sentado no lugar que deveria estar reservado a Banquo. Os restantes convidados não conseguem vê-lo, criando uma situação de grande tensão dramática. A aparição pode ser interpretada como manifestação da culpa do protagonista, mas também reforça a atmosfera sobrenatural da peça.

Lady Macbeth participa igualmente nesta dimensão de perturbação psicológica. Depois de incentivar o marido a assassinar Duncan, começa progressivamente a ser dominada pela culpa. Na famosa cena do sonambulismo, tenta limpar das mãos uma mancha de sangue imaginária. A expressão “Out, damned spot!” representa a impossibilidade de apagar a culpa através de um simples gesto físico. Assim, o sangue transforma-se num símbolo da violência cometida e das consequências psicológicas do crime.

A presença constante destes elementos ajuda a compreender por que razão Macbeth se tornou particularmente ligada às superstições teatrais. A peça apresenta bruxas, fantasmas, assassinatos, profecias e forças que parecem escapar ao controlo humano. O próprio ambiente dramático favorece, portanto, a associação entre a obra e o desconhecido.

Um dos episódios mais antigos frequentemente associado à lenda terá ocorrido em 1672, numa representação de Macbeth em Amesterdão. Segundo a tradição, foram utilizadas armas reais durante uma cena de combate e um dos atores acabou por ferir mortalmente outro intérprete que participava na representação. Embora este episódio seja repetido em diversas histórias sobre a maldição, deve ser tratado com alguma cautela, pois os relatos disponíveis são posteriores e a sua exatidão histórica é discutível. O interesse do episódio reside, sobretudo, na forma como contribuiu para a construção da reputação perigosa da peça.

Um caso melhor documentado ocorreu em 1947, quando o ator britânico Harold Norman, que interpretava Macbeth, sofreu ferimentos graves durante uma cena de luta numa produção realizada no Colosseum Theatre, em Oldham. Norman acabou por morrer devido aos ferimentos. O acidente tornou-se posteriormente um dos exemplos mais conhecidos utilizados para ilustrar a chamada maldição de Macbeth. É importante, contudo, evitar concluir que a morte teve uma causa sobrenatural: tratou-se de um acidente ocorrido durante uma representação teatral.

Também existe entre nós um episódio frequentemente relacionado com a superstição. A 2 de dezembro de 1964, o Teatro Nacional D. Maria II, foi destruído por um incêndio. O acontecimento passou a ser associado à tradição da maldição de Macbeth, sendo referido em relatos sobre os supostos infortúnios relacionados com a peça. No entanto, tal como acontece com outros exemplos, a associação entre o incêndio e Macbeth não constitui prova de qualquer fenómeno sobrenatural. O valor deste caso está principalmente na maneira como um acontecimento trágico pode ser incorporado numa tradição já existente.

Um dos acontecimentos mais significativos relacionados com uma representação de Macbeth ocorreu em Nova Iorque, em 10 de maio de 1849. Nesse dia, o ator inglês William Charles Macready representava Macbeth no Astor Place Opera House. A produção estava envolvida numa intensa rivalidade com as representações de Macbeth protagonizadas pelo ator norte-americano Edwin Forrest.

O conflito ultrapassou rapidamente a esfera artística. As rivalidades entre os dois atores estavam relacionadas com tensões nacionalistas, diferenças sociais e disputas em torno da cultura teatral americana e britânica. Durante a representação, uma multidão reuniu-se nas proximidades do teatro e a situação transformou-se num motim. A intervenção das autoridades provocou mais de vinte mortos e mais de uma centena de feridos.

O chamado Astor Place Riot é frequentemente incluído nas narrativas sobre a maldição de Macbeth. Contudo, neste caso, a explicação histórica é muito mais clara: o desastre resultou de conflitos sociais e políticos e da rivalidade existente em torno dos dois atores. O episódio demonstra, por isso, a importância de distinguir entre a superstição e as causas reais dos acontecimentos.

Mais do que uma verdadeira ameaça sobrenatural, a “maldição de Macbeth” pode ser entendida como um fenómeno cultural e psicológico. A superstição demonstra a importância que as crenças coletivas podem adquirir num ambiente profissional. Mesmo atores e técnicos que não acreditam literalmente numa maldição podem respeitar determinadas práticas por tradição, humor ou respeito pelos colegas.

A existência desta superstição também contribuiu para aumentar a fama da peça. O público tende a sentir curiosidade por obras rodeadas de mistério, e a ideia de que Macbeth traz azar acrescenta uma dimensão extratextual à experiência teatral. A peça deixa, assim, de ser apenas uma tragédia de Shakespeare e passa a estar associada a uma história própria de representações, acidentes, incêndios e crenças.

 

Ricardo Cabaça

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